Neste mês de fevereiro, observamos no Brasil um grande fenômeno cultural que é o Carnaval. Nele, as pessoas brincam, se divertem, se reúnem e confraternizam. Claro, nem tudo são flores. No entanto, a ideia dessa festa é celebrar a alegria e as diferentes formas de expressão popular.
De certo modo, em meio às incertezas da vida, as celebrações fazem lembrar a importância dos encontros, das conexões entre as pessoas e do compartilhar da esperança. Sim, em meio a possíveis inseguranças, estar junto a pessoas que reforçam em cada um a possibilidade de continuar sorrindo e acreditando que a vida pode ser vivida de modo mais leve, pode dar forças a toda uma nação.
Tudo isso porque a personalidade se constitui em meio a atmosferas que são coletivas e que são apropriadas de modo singular por cada sujeito. Assim, uma atmosfera como a do Carnaval é capaz de envolver as pessoas com a emoção da alegria. Torna-se fonte de prazer e comunhão.
Por que é importante termos esperança?
Sartre (1986) falava sobre a importância da esperança na vida humana. Ela aparece, segundo ele, como elemento que permite continuar vivendo. Isso porque aponta para um futuro possível, para um projetar-se para algo além do que se vive no presente. Nesse sentido, pode-se considerar que a esperança adquire função de manter o sujeito projetando-se para o futuro. Em outras palavras, para aquilo que ainda não é, mantendo, portanto, aquilo que torna a vida possível.
Já foi dito aqui no Blog que o sofrimento emocional com frequência surge da antecipação de que o futuro reserva vivências não desejadas. Ou, ainda, de que seja repleto de situações que parecem difíceis de ser ultrapassadas. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que sempre se imaginou feliz sendo casada e tendo filhos. Na medida em que antecipar que seu futuro será outro, pode sofrer. Pode acreditar que a felicidade nunca se concretizará em sua existência. Essa experimentação de um “futuro fechado” a possibilidades – por exemplo, de ser feliz solteira, ou de ter filhos sem estar em um casamento, ou mesmo de amar uma outra pessoa após um divórcio – pode causar sofrimento, experimentado na falta de esperança de que o futuro reserve outras alternativas.
Tendo em vista, então, que a realidade se impõe em sua facticidade, é possível que os acontecimentos no presente sejam diferentes daqueles desejados anteriormente. Dessa forma, colocam os sujeitos frente à necessidade de se reinventar – de construir um outro futuro, fazendo escolhas na situação dada. Assim, pode ser que, apesar de ter-se esforçado para encontrar um parceiro amoroso e de construir uma relação harmoniosa, um rompimento aconteça e exija uma reformulação da vida vivida até o momento. Porém, se o futuro aparece como diferente daquele projetado inicialmente, não quer dizer que não possa ser viabilizador, feliz e permeado de vivências satisfatórias.
O futuro está sempre por ser construído
Ainda que a situação vivenciada seja restrita em suas escolhas e possibilidades, Sartre nos lembra da exigência que há em tomar posições. É preciso fazer algo daquilo que acontece a cada um. Desse modo, diz ele que viver na esperança exige que se tenha que “fundá-la” (Sartre, 1986, p. 64), ou seja, que produzi-la. Embora as escolhas sejam feitas sempre em meio a condições existenciais, sociais, culturais, econômicas e pessoais, por pior que seja o cenário, isso não isenta cada sujeito de sua responsabilidade em fazê-las.
Nesse panorama, se cada um puder manter a esperança de que um futuro bom seja possível, de que, ainda que seja necessário rever e reorganizar seu projeto a partir das imposições que a vida faz, então o sofrimento poderá ser amenizado. Para Sartre, a manutenção da esperança permite que o sofrimento seja enfrentado com alguma perspectiva de futuro. Assim, faz com que se torne suportável, tendo em vista que o que paralisa a pessoa não é o sofrimento por si só, mas o sofrimento sem articulação ao projeto que o sujeito busca realizar.
Conexões Pessoais: apoio e novas possibilidades
Nesse processo, volta-se à ideia inicial do Carnaval. Ainda que a situação atual vivenciada não seja a desejada, reunir-se com pessoas que podem auxiliar a ampliar as possibilidades de futuro, a enxergar outras escolhas a serem feitas, celebrar a diversidade de caminhos existentes e reforçar a esperança de uma vida diferente daquela que se tem, pode contribuir para o bem estar emocional.
Não significa negar a realidade – pelo contrário. É poder buscar apoio e formas de encarar a existência entendendo que, ainda que haja percalços e necessidade de redirecionamentos, a alegria é possível. Principalmente, se cada um buscar renovar suas esperanças em um futuro que está sempre por ser construído. Além disso, é compartilhar alegrias – assim como as tristezas. É amparar-se em quem oferece ajuda, para que a esperança se renove e não deixe de existir em cada novo dia vivido.
Referência:
Sartre, J-P. (1986). O testamento de Sartre. Porto Alegre: L&PM. (Texto original publicado em 1980).