Segundo o existencialismo sartreano, quando nascemos não temos uma personalidade formada. Assim, nosso ser vai se constituindo a partir das nossas relações e das mediações que são realizadas pelas pessoas no nosso entorno. Por isso, é importante considerar de que modo estamos apresentando o mundo e as situações às crianças. Além disso, como estamos, na relação com elas, auxiliando na apropriação que elas vão fazer da sua condição.
As crianças muito rapidamente podem se beneficiar de uma relação em que os adultos apresentam a ela o mundo como ele é, nas condições de possibilidade que existem e nas imposições que o mundo concreto nos faz.
Por isso, as sugestões abaixo têm como propósito orientar os adultos nos cuidados oferecidos às crianças em tempos de pandemia.
Crianças Pequenas
Quanto menor a criança, menor sua capacidade de abstrair e avaliar reflexivamente suas vivências. Desse modo, diante das mudanças abruptas de rotina, elas estão mais suscetíveis à ansiedade, por terem mais dificuldade em compreender o que acontece no seu entorno. Assim, se as mães, pais ou responsáveis, por exemplo, estiverem muito irritados e estressados, a criança pode acreditar que seja por algo que ela tenha feito, visto que, nesse período, as fantasias e o imaginário são as principais formas que a criança acessa para tentar entender e explicar sua realidade.
Por essa razão, se os adultos estiverem enfrentando dificuldade em manter-se bem emocionalmente, é importante que auxiliem a criança e permanecer segura de que esses sentimentos vivenciados pelas mães e pais não são decorrentes de algo que a criança tenha feito ou deixado de fazer. Além disso, podem ajudar a criança a perceber os elementos da realidade que contribuem para as experiências familiares nesse momento.
Neste contexto, é importante observar o uso de linguagem acessível à criança. Ademais, podem ser utilizados também outros recursos. Entre eles, desenhos (desenhar o que está acontecendo na vida da família, como o afastamento da escola, o trabalho dos pais em casa, a distância dos amigos e da família) e também livros que falem sobre as emoções ou mesmo que explicam sobre o coronavírus. Ao final do texto, vamos disponibilizar algumas sugestões de materiais.
Crianças Maiores
O uso de estratégias para auxiliar as crianças a compreenderem suas emoções e vivências varia de acordo com sua capacidade cognitiva. É principalmente em torno dos 7 anos que a criança começa e ter a capacidade de compreensão e abstração desenvolvida.
Assim, crianças já alfabetizadas têm a oportunidade de fazer leituras de livros e outros materiais disponíveis na internet e que auxiliam a mediá-las com base na realidade enfrentada, e menos pela via do imaginário, como nas crianças menores. Por outro lado, isso não significa expor a criança ao máximo de informações possíveis. Pelo contrário: é importante selecionar a qualidade e a quantidade de dados. Além disso, é importante também verificar o que elas entenderam sobre o que receberam de notícias e quais são as suas principais preocupações e sentimentos em relação ao cenário atual.
Por exemplo, se uma criança perguntar o que é o coronavírus, antes de responder, pergunte o que ela já sabe, o que ouviu falar, Assim, você poderá adequar sua resposta ao nível de conhecimento que ela já tem. Se ela perguntar quando voltará à escola, aproveite para perguntar a ela como é estar longe da escola. Se ela responder que gosta de ficar em casa e na companhia da família, pode ser uma oportunidade para enfatizar a possibilidade de aproveitar este momento de convivência e também de explicar os benefícios dos estudos e da frequência ao ambiente escolar, estimulando-as para quando as aulas retornarem. Se ela disser que sente falta dos amigos e dos professores, pense em estratégias para aproximá-la dessas pessoas, fazendo vídeo chamadas, por exemplo, mantendo-a próxima à atmosfera da escola através de vídeo aulas, tarefas ou aprendizados dos conteúdos curriculares.
Rotina da Criança
Embora, aparentemente, as crianças gostem de não ter rotina, pela possibilidade de manter-se fazendo somente o que gostam, sem precisar lidar com compromissos, a falta dela pode gerar ainda mais ansiedade e estresse. Isso se deve à dificuldade das crianças de organizar sozinhas seu tempo. Assim, é importante tentar garantir horários para refeições, sono, atividades escolares, brincadeiras e momentos em família, em especial tentando elaborar em conjunto com elas esse plano diário.
Como dito anteriormente, as crianças têm dificuldade para antecipar o futuro. Assim, é importante que os adultos ajudem a criança a saber como será o seu dia e que, após a realização de suas tarefas, haverá tempo para brincar, interagir e estar com sua família. Antecipando os momentos que virão, os adultos proporcionarão segurança emocional à criança e oportunizarão a elas perceber que, após o cumprimento de suas tarefas, haverá momentos de descontração.
Rotina da Família
É importante ressaltar que, apesar do desafio que pode ser conciliar as rotinas da família, é fundamental que os adultos cumpram com os combinados feitos. Assim, por exemplo, que depois de uma hora em que elas estejam estudando ou brincando sozinhas e as mães e pais trabalhando, vão então brincar juntos. Na impossibilidade de fazê-lo, é importante que expliquem o que aconteceu e façam novo combinado, dando previsão de quando então poderão fazer o que haviam estipulado. Dessa forma, as crianças aprenderão a compreender a dinâmica familiar e terão a oportunidade de confiar que, quando cada um faz sua parte, os combinados acontecem e favorecem a todos.
Esse é um aprendizado importante nesse período: o senso de cooperação, em que, na medida que cada um faz sua parte e todos cumprem o que estiver estabelecido conjuntamente, todos terão a oportunidade de ter suas necessidades satisfeitas. Além disso, o senso de confiança da criança nas mães e pais, de que aquilo que lhes foi prometido será cumprido ou, no máximo, re-acordado claramente, faz com que a criança gradativamente aprenda a lidar melhor com os períodos de espera e com o imperativo dos adultos em terem tempo e espaço para realizar suas tarefas.
Home Office e Crianças
Os pais e mães que estão trabalhando em home office, que na maioria dos casos ocorreu de modo abrupto, não planejado e, portanto, sem as condições para a execução das atividades nessa forma de trabalho, têm enfrentado o desafio de lidar com o fato de estarem presentes na casa, mas precisando se ausentar do cuidado com os filhos e filhas durante as horas de trabalho.
Por essa razão, há dois aspectos importantes que, se observados, podem auxiliar nesse processo: o primeiro, que os adultos busquem dedicar momentos de atenção exclusiva às crianças, colocando também limites na sua própria rotina de atividades e passando tempo de qualidade com seus filhos e filhas. Pode ser no momento das refeições, nas rotinas de banho e cuidados pessoais, no preparo para o sono ou ao acordar, mas também em ocasiões específicas para jogos, brincadeiras, desenhos, leituras, que façam com que pais, mães e filhos/as estejam juntos em uma mesma situação, compartilhando de um momento e da mesma atividade.
O segundo, no entanto, é estimular as crianças a aprenderem a lidar com os momentos de tédio, quando podem, a partir dessa experiência, ter que usar de sua criatividade para inventar brincadeiras, sem esperar que os adultos proponham a elas o que fazer. Esse aprendizado é valioso para a habilidade de solução de problemas, imaginação e introspecção da criança. Nesse sentido, na medida em que os adultos, nas primeiras vezes, mostram para a criança como lidar com o sentimento de tédio, criando possibilidades de atividades, nas vezes seguintes podem estimular as crianças a fazerem o mesmo de forma independente, lembrando-se das vezes anteriores em que, com ajuda dos adultos, superaram aquele momento. Desse modo, esse pode também ser um período de crescimento e desenvolvimento infantil importante dentro de um contexto de restrições.
Envolvimento das Crianças nas Atividades Domésticas
Entre os aprendizados que esse momento pode gerar, está a inserção que as mães e pais podem fazer da criança junto às rotinas da casa. Dar a elas pequenas tarefas conforme sua condição e idade (levar a louça para a pia, regar plantas, arrumar seus brinquedos e materiais) pode auxiliar os adultos a dedicarem tempo para os cuidados com a casa sem se afastar das crianças. Além de ser uma atividade que pode aproximar adultos e crianças, na medida em que realizam juntos as tarefas domésticas, esses momentos podem também ensinar as crianças a cuidarem de seus pertences e das coisas da casa.
Convivência Familiar e Estabilidade Emocional
Podemos também pensar neste período de quarentena como uma oportunidade que as famílias estão tendo para conviver mais tempo, o que pode auxiliar as crianças a terem um sentido positivo na compreensão do período da pandemia.
Em tempos anteriores a esse de distanciamento social, muitas vezes as crianças eram hiper estimuladas, tendo uma série de atividades a cumprir, além da necessidade de acordar cedo, ir para a escola e, muitas vezes, passar o dia longe de casa e do ambiente familiar, enfrentando tanto quanto os adultos uma vida corrida e fragmentada.
Assim, uma rotina mais calma e previsível pode oferecer segurança e estabilidade emocional à criança. Além disso, auxilia também mães e pais a confirmarem que quantidade não é sinônimo de qualidade.
Pais, Mães e Responsáveis
Mães e pais são, em sua escolha por ter e cuidar de seus filhos/as, grandes aventureiros que se lançaram para uma das mais desafiadoras e surpreendentes jornadas: a de acompanhar e promover o desenvolvimento de outros seres.
Não que sejam os únicos responsáveis pelo que a criança será, visto que, na medida em que crescemos, temos a liberdade de “fazer algo do que fizeram de nós”. Mas, principalmente, porque se dispuseram a ser o porto seguro e a referência de outros, sem que haja guia ou manual prático para a execução da arte de cuidar e educar.
Ser mãe e ser pai é dispor-se a construir seu próprio caminho na relação com os filhos, suportando dúvidas e angústias, indo em busca de respostas que só se constroem na medida em que as perguntas são realizadas. É lidar com incertezas, mas tendo em contrapartida a experiência de um amor que se fortalece e cresce na medida do que se investe.
Por fim, nunca é demais lembrar: se este período tem sido muito difícil pra você, mãe, pai ou responsável por criança(s) em quarentena, cuide de si mesmo. Reserve tempo para fazer coisas que você gosta, inicie práticas que auxiliem a relaxar, descansar, desconectar. Procure apoio em grupos de pais e mães que estão passando pela mesma experiência, seja por vídeo chamada ou mensagens. Tente negociar com outros adultos da rede de relações da criança, resguardados os cuidados relacionados à pandemia, sobre dias, períodos ou horas em que você poderá deixá-la aos cuidados de alguém de sua confiança para que você tenha um tempo para si. Em geral, cuidadores deixam o autocuidado por último na lista de suas prioridades. Lembre-se: você será mais efetivo na tarefa de cuidar de seus filhos se fizer isso sem esquecer do seu próprio cuidado.
Livros para auxiliar as crianças em tempos de pandemia
Para falar sobre emoções:
1. Emocionário
Autores: Cristina Núñes Pereira e Rafael R. Valcárcel
Editora Sextante
2. O Grande Livro das Emoções
Autores: Mary Hoffman e Ros Asquith
3. O Livro dos Sentimentos (para crianças menores)
Autor: Todd Parr
Livro com atividades para desenvolver inteligência emocional:
1. Atividades para o desenvolvimento de inteligência emocional nas crianças
Arte Plural Edições
Livros sobre o Coronavírus e de como lidar com os sentimentos gerados pela pandemia:
1. As Máscaras dos Sentimentos
2. A História da Ostra e da Borboleta: o coronavírus e eu
Livros sobre Medos:
- Chapeuzinho Amarelo – Chico Buarque
- O Casaco de Pupa – Elena Ferrandiz
- Eu não tenho medo – (para crianças menores)