A religiosidade e a espiritualidade são consideradas como fatores contribuintes na melhora da qualidade de vida das pessoas, tendo em vista que auxiliam na construção de sentido ou propósito para as ações que realizam e para o futuro que buscam concretizar.
Porém, espiritualidade e religiosidade não são sinônimos: a espiritualidade está relacionada ao significado da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência; já a religiosidade é compreendida como um conjunto de crenças e práticas institucionalizadas, como a frequência a cultos, missas, entre outros rituais.
Segundo dados do IBGE (2010), o Brasil possui um potencial religioso expressivo e alta prevalência de praticantes de religiosidade/espiritualidade, sendo que apenas 8% da população declara não ter alguma religião. Em 1988, a Organização Mundial de Saúde incluiu a dimensão espiritual no conceito multidimensional de saúde, indicando a necessidade de os profissionais de saúde incluírem este aspecto em suas práticas; e, por fim, em 2013, o Conselho Federal de Psicologia lançou uma nota técnica apontando a importância de psicólogos incluírem este aspecto da vida humana em seu trabalho.
Como a espiritualidade faz parte da vida das pessoas
A espiritualidade é constituinte do sujeito, sendo uma relação como outras estabelecidas pelas pessoas (familiares, sociais, com o corpo, com o trabalho). Além disso, as crenças constituem uma parte importante da cultura, dos princípios e dos valores utilizados pelas pessoas para dar forma a julgamentos e ao processamento de informações. No Existencialismo Sartreano, chamamos isso de “racionalidade”.
A religiosidade, assim, pode ser compreendida como uma racionalidade mediadora do ser do sujeito, que lhe permite elaborar e dar sentido às suas experiências, conforme sua trajetória e o contexto sociológico e antropológico.
Racionalidade aqui é compreendida como conjunto de explicações e razões dispostas em determinado tempo histórico e do qual os sujeitos retiram os elementos para compreender os fenômenos vividos.
Portanto, é importante que psicólogos acolham em suas práticas questões sobre espiritualidade e/ou a religiosidade tendo em vista o fato de a maioria dos brasileiros ter uma crença e também porque as pessoas, muitas vezes, querem falar com seus psicoterapeutas sobre esse aspecto de suas vidas. Por fim, a maioria das pessoas se constitui a partir de uma racionalidade (posta na família, na sociedade, na comunidade) que inclui crenças espirituais ou religiosas e porque, cada vez mais a ciência tem demonstrado uma relação positiva entre práticas espirituais/religiosas e uma boa saúde mental.
Como o psicólogo aborda a espiritualidade na clínica
Quando a espiritualidade é abordada na prática clínica, o psicoterapeuta não deve pronunciar-se a respeito de alguns preceitos religiosos, como o da existência de Deus, vida após a morte ou milagres. O profissional deve compreender de que modo a pessoa se relaciona com sua crença e de que forma esta crença faz com que o sujeito compreenda aquilo que lhe acontece.
Nesse sentido, podemos pensar que as crenças de uma pessoa podem ser um recurso de enfrentamento a situações difíceis, mas podem também trazer complicações emocionais, quando geram impasses em relação ao que a pessoa vive.
Quando as pessoas passam por situações de luto e adoecimento, por exemplo, muitas conseguem encontrar um sentido para essas experiências por meio da espiritualidade, o que pode auxiliar no enfrentamento destas condições e amenizar o sofrimento.
Algumas pessoas acreditam que uma situação difícil pode servir para aprendizado ou para uma revisão do modo como viviam até então e, neste caso, a espiritualidade atua como um recurso de enfrentamento.
Já outras podem se sentir abandonadas por Deus, visto que acreditam que a doença ou a perda de alguém querido é uma forma de castigo, o que pode intensificar ainda mais sua dor emocional.
Desse modo, o psicoterapeuta compreende de que forma a espiritualidade/religiosidade contribuem para a compreensão do sujeito em relação ao que ele vive, bem como da racionalidade religiosa/espiritual em que ele se constituiu e a partir da qual faz suas escolhas e se relaciona com outros aspectos da realidade. Se necessário, poderá então contribuir para uma reorganização da relação estabelecida pela pessoa com este aspecto da sua vida.
A Psicologia utiliza o método científico de compreensão dos fenômenos. Neste sentido, trata-se de uma racionalidade distinta da religiosa. Ambos os conhecimentos coexistem e podem dialogar entre si. Porém, o psicoterapeuta não questionará o entendimento que o sujeito faz de suas questões com base na religião. O processo psicoterapêutico busca compreender de que modo esse entendimento impacta nas questões psicológicas e vice-versa.
Quando há casos em que as complicações psicológicas exigem modificação da racionalidade religiosa, o psicoterapeuta pode recorrer ao trabalho em conjunto com padres, pastores e outros representantes das diversas religiões.
Em consonância com o que destaca o Conselho Federal de Psicologia (CFP), os profissionais da Clínica Consciência Psicologia prezam acima de tudo pela ética e respeito às crenças de seus clientes. Por meio da formação de uma relação empática, buscam compreender o significado e a importância que cada paciente atribui às suas crenças, integrando esse aspecto aos cuidados em psicoterapia.